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Quase quatro meses após o trágico assassinato do ativista cultural, colunista social, advogado e servidor público Moisés Ferreira de Alencastro, de 59 anos, a Justiça do Acre marcou para o dia 13 de abril a audiência de instrução e julgamento dos dois homens acusados pelo crime. Antônio de Sousa Morais, de 22 anos, e Nataniel Oliveira de Lima, de 23, tornaram-se réus no processo após a denúncia do Ministério Público do Acre (MP-AC) ser acatada, em um caso que chocou a sociedade acreana e trouxe à tona discussões cruciais sobre violência e crimes de ódio no estado.

A confirmação da primeira reunião judicial com os acusados, que serão ouvidos juntamente com testemunhas — cujo número não foi detalhado —, partiu do Tribunal de Justiça do Acre (TJ-AC). A decisão de recebimento da denúncia, que converteu os suspeitos em réus, foi proferida pelo juiz Alesson Braz, da 2ª Vara do Tribunal do Júri e Auditoria Militar da Comarca de Rio Branco, alinhando-se com as conclusões do inquérito conduzido pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

O Legado de Moisés Alencastro

Moisés Alencastro não era apenas um nome conhecido em Rio Branco; ele era uma figura multifacetada e influente. Com uma carreira consolidada como servidor do Ministério Público do Acre desde 2006, ele também se destacava como colunista social, trazendo um olhar atento sobre a vida cultural e social da capital. Sua atuação como ativista cultural era igualmente marcante, contribuindo para a efervescência artística e para a valorização da identidade local. Sua morte, ocorrida em 22 de dezembro do ano passado, deixou uma lacuna não apenas para sua família e amigos, mas para toda uma comunidade que o via como um pilar de dinamismo e engajamento.

O corpo de Alencastro foi encontrado em seu apartamento, enquanto seu carro foi localizado abandonado na Estrada do Quixadá, zona rural de Rio Branco. A brutalidade do crime – o laudo cadavérico apontou cerca de quatro golpes de faca – e a relevância da vítima rapidamente mobilizaram as autoridades e a opinião pública, exigindo respostas e justiça.

A Rápida Resposta da Investigação e as Acusações

A Polícia Civil do Acre agiu com celeridade. Em 25 de dezembro, apenas três dias após o corpo de Moisés ser encontrado, Antônio de Sousa Morais foi preso em Rio Branco. Horas depois, Nataniel Oliveira de Lima, apontado como o segundo envolvido, também foi detido. Ambos confessaram o crime, segundo as autoridades, e tiveram suas prisões mantidas pela Justiça em audiência de custódia, sendo encaminhados ao Complexo Prisional de Rio Branco.

A investigação, concluída pela Polícia Civil e encaminhada ao Ministério Público em 30 de dezembro, inicialmente considerou a hipótese de latrocínio. No entanto, a ausência de sinais de arrombamento no imóvel e a subsequente coleta de evidências, como documentos, controles do veículo e do apartamento, além de roupas com vestígios de sangue encontradas em endereços ligados aos suspeitos, mudaram a perspectiva do caso. A denúncia formal do promotor de Justiça Efrain Mendoza enquadrou os réus por homicídio qualificado, com as agravantes de motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima, além de furto qualificado do veículo e do aparelho celular de Moisés.

O Debate Sobre Homofobia Como Motivação

Um dos pontos mais sensíveis e amplamente debatidos no caso Alencastro é a possível motivação homofóbica do crime. Embora a legislação brasileira, diferentemente do feminicídio, não preveja expressamente a homofobia como qualificadora para o homicídio, o Ministério Público do Acre não descartou essa linha de investigação. O promotor Efrain Mendoza esclareceu que, juridicamente, tal motivação pode ser enquadrada na qualificadora de 'motivo torpe', que abrange crimes cometidos por razões abjetas, egoístas ou discriminatórias.

A promotora de Justiça Patrícia Rêgo reforçou essa visão em entrevista, destacando a importância de 'nomear corretamente o que ocorreu'. Ela categoricamente afirmou que 'não foi latrocínio', mas sim 'um crime de ódio, com requinte de crueldade'. Essa distinção é vital para a compreensão da natureza do delito e para o reconhecimento da vulnerabilidade de grupos minoritários, como a comunidade LGBTQIA+, que frequentemente são alvos de violência motivada por preconceito. A discussão sobre a homofobia como agravante ressoa em um contexto nacional onde a violência contra pessoas LGBTQIA+ ainda é alarmante, e a criminalização da homotransfobia pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2019 reflete a urgência de combater esse tipo de crime.

Repercussão e Expectativas para o Julgamento

A morte de Moisés Alencastro gerou uma onda de consternação e solidariedade. A ex-senadora e atual ministra Marina Silva, acreana, expressou o 'choque enorme' com a notícia, refletindo o sentimento de luto e indignação que tomou conta da população. O caso não é apenas um processo judicial, mas um espelho das tensões sociais e dos desafios na luta por direitos humanos e respeito às diversidades no Brasil.

Com a audiência de instrução e julgamento marcada, a expectativa é que novas informações venham à tona e que o processo avance em direção à sentença. A sociedade acreana, e o país, acompanharão de perto cada desdobramento, na esperança de que a justiça seja feita e que a memória de Moisés Alencastro seja honrada com a condenação dos responsáveis, reforçando a mensagem de que crimes de ódio e violência não ficarão impunes.

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Fonte: https://g1.globo.com

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