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O cenário geopolítico volátil no Oriente Médio tem reverberado em diversos setores da economia global, e o agronegócio brasileiro não é exceção. Produtores de carne de frango do Brasil estão em estado de alerta máximo, acompanhando de perto os desdobramentos da crise. Uma análise recente do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) do campus da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba (SP) aponta para possíveis impactos significativos no mercado doméstico e nas estratégias de exportação, com a perspectiva de alta nos preços para o consumidor e desafios inéditos para a avicultura nacional.

O Oriente Médio: um mercado estratégico para o frango brasileiro

O Brasil consolidou-se como um dos maiores exportadores globais de carne de frango, e a região do Oriente Médio desempenha um papel crucial nessa equação. Dados do Cepea indicam que, em anos recentes, a região tem sido destino de cerca de 25% dos embarques brasileiros de carne de frango. Países como Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita figuram entre os principais importadores, sendo o primeiro e o terceiro maiores destinos, respectivamente. Somente para esses dois países, mais de 877 mil toneladas da proteína foram escoadas em 2023, conforme dados da Secex, evidenciando a dependência e a relevância comercial da rota.

A intensificação das tensões na região, que envolvem não apenas o conflito direto, mas também a ameaça de interrupção de rotas comerciais vitais como o Estreito de Ormuz, impõe uma barreira iminente. A eventual suspensão ou severa restrição de novas exportações para a área, como avaliam os avicultores consultados pelo Cepea, forçaria uma reconfiguração da logística e dos mercados de destino, com repercussões diretas e indiretas em toda a cadeia produtiva e de consumo.

Desafios internos em caso de redirecionamento de exportações

Diante da possibilidade de um fechamento ou desaceleração do mercado do Oriente Médio, a alternativa mais imediata para os produtores brasileiros seria realocar o volume de carne de frango para o mercado interno. Contudo, essa solução não está isenta de complexidades. Os países do Oriente Médio, por exemplo, compram predominantemente o frango inteiro do Brasil. Um redirecionamento exigiria adaptações significativas por parte dos frigoríficos e distribuidores, desde alterações em embalagens e etiquetas, até ajustes nas linhas de produção para atender às preferências e exigências do consumidor brasileiro, que muitas vezes busca cortes específicos.

Além das adaptações intrínsecas ao produto, a dinâmica do comércio exterior envolve uma complexa rede de questões logísticas, legais e fitossanitárias que não podem ser subestimadas. Pesquisadores do Cepea ressaltam que a mudança de destino, especialmente em larga escala, demanda tempo, investimento e um planejamento minucioso para evitar desperdícios e prejuízos. A capacidade de absorção do mercado interno, embora robusta, pode ser testada por um influxo súbito de grandes volumes, potencialmente desequilibrando a oferta e a demanda e impactando as margens dos produtores.

Impactos na mesa do brasileiro e no bolso do avicultor

A interrupção das exportações de carne de frango para o Oriente Médio não é apenas um problema do setor produtivo; ela pode se traduzir diretamente em mudanças no dia a dia do consumidor brasileiro. Economistas alertam que o conflito, ao atingir as cadeias de suprimentos e elevar os custos de produção agrícola (como combustíveis e insumos), pode, indiretamente, encarecer os alimentos para os consumidores no Brasil nos próximos meses. Embora um excedente de carne de frango no mercado interno pudesse, teoricamente, reduzir os preços, a combinação de outros fatores de custo e a dificuldade de adaptação da cadeia podem gerar um cenário de incerteza para o consumidor.

Do lado do produtor, a situação já é delicada. Análises do Cepea revelam que os avicultores paulistas têm enfrentado uma retração no poder de compra frente aos principais insumos, como milho e farelo de soja, por vários meses consecutivos. Em períodos recentes, como o início de 2024, os preços do frango vivo registraram quedas. Para se ter uma ideia, até o final de fevereiro, antes mesmo da escalada mais recente das tensões, o preço do frango vivo atingiu o menor patamar real desde maio de 2023, considerando a série deflacionada. Enquanto isso, os preços do milho se mantiveram estáveis e os do farelo de soja apresentaram um pequeno avanço, comprimindo ainda mais as margens de lucro dos produtores.

No estado de São Paulo, o valor médio do quilo do frango vivo, registrado em fevereiro, foi de R$ 5,04, representando uma queda de 2,1% em relação ao mês anterior. Esse cenário, somado à incerteza das exportações, cria um ambiente de grande pressão econômica para o avicultor, que vê seus custos aumentarem e a demanda externa em risco, enquanto o mercado interno exige novas estratégias e investimentos.

Cenário de incerteza e a busca por resiliência

A situação atual impõe à avicultura brasileira a necessidade de agilidade e resiliência. A busca por novos mercados ou a intensificação das vendas em destinos já consolidados torna-se imperativa, assim como um planejamento estratégico robusto para o abastecimento interno. Governos e entidades setoriais podem ter um papel crucial na mediação de acordos e na facilitação de processos para minimizar os impactos, tanto para os produtores quanto para os consumidores.

O conflito no Oriente Médio, distante geograficamente, mostra como a interconectividade da economia global torna eventos regionais capazes de gerar ondas que alcançam o dia a dia de milhões de brasileiros, desde o campo até a mesa. A capacidade de adaptação e a busca por informações qualificadas, como as fornecidas por instituições como o Cepea/USP, são fundamentais para navegar em um ambiente de crescentes desafios e incertezas.

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Fonte: https://g1.globo.com

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