Médica vítima de assédio em jogo do Paulista reafirma: ‘Não vai me desanimar’, e cobra punição em Ribeirão Preto

Dois dias após ser vítima de assédio sexual durante uma partida da Série A4 do Campeonato Paulista, a médica Bianca Francelino, que prestava assistência ao time visitante no Estádio Palma Travassos, em Ribeirão Preto (SP), manifestou-se com uma postura de resiliência. Em declaração na segunda-feira (9), ela afirmou que o lamentável episódio não a fará desistir de sua atuação em campo e de sua paixão pelo esporte, reforçando a importância da punição aos agressores para coibir tais atos.

'Isso não me desanima, porque eu tenho a paixão pelo esporte. É onde eu quero atuar e, de forma alguma, isso me cala, me desanima ou qualquer coisa do tipo', declarou Francelino, ressaltando a incongruência entre o comportamento dos torcedores e o verdadeiro espírito do futebol. Ela completou: 'Eu sei que isso não reflete o espírito do esporte, a união do esporte e do futebol. De forma alguma, uma situação isolada dessa me faz desanimar de prestar esse tipo de serviço'. Sua fala se tornou um eco da persistência feminina em ambientes que ainda desafiam a igualdade de gênero.

A cronologia do assédio em campo e a véspera do Dia da Mulher

O incidente chocante ocorreu no sábado (7), um dia antes das celebrações do Dia Internacional da Mulher, durante o confronto entre Comercial e Nacional-SP, pela nona rodada da Série A4 do Campeonato Paulista. Bianca Francelino, integrante da equipe médica do Nacional-SP, estava em plena execução de seu trabalho profissional quando, segundo seu relato à EPTV, afiliada da TV Globo, foi alvo de uma série de ofensas e comentários de cunho sexual proferidos por torcedores situados no alambrado, uma barreira que deveria demarcar a segurança, não a impunidade.

Os abusos verbais foram explícitos e constantes, com frases que extrapolam o limite do aceitável e invadem a dignidade da profissional. 'Gritavam 'doutora gostosa' o tempo inteiro. 'Doutora gostosa, vem aqui me examinar', 'doutora gostosa, estou com uma dor aqui', apontando para parte íntima. Pedir WhatsApp, Instagram. Foram esses tipos de brincadeira o tempo inteiro', detalhou a médica, expondo a dimensão da importunação. Além das conotações sexuais, Francelino também foi confrontada com a sugestão de que, se não queria ouvir 'zoeirinhas', não deveria estar ali, mas sim 'ficar em casa para próxima vez' — uma tentativa clara de deslegitimar sua presença e trabalho em um ambiente esportivo, reforçando o machismo estrutural.

Repercussão, ações e a formalização da denúncia

A gravidade do assédio gerou imediata reação por parte das instituições. O Comercial, clube mandante da partida, emitiu uma nota repudiando veementemente o ocorrido e informou que um dos torcedores envolvidos já havia sido identificado. A Federação Paulista de Futebol (FPF), por sua vez, garantiu que o caso foi encaminhado às autoridades competentes e que os responsáveis serão punidos de forma rigorosa, conforme o protocolo previsto no tratado pela diversidade e contra a intolerância no futebol paulista. A árbitra da partida, Ana Caroline D'Eleutério, acionou o protocolo e a médica recebeu apoio direto da organização, um passo essencial para a validação da denúncia.

O registro oficial do jogo, a súmula da partida, detalha a comunicação feita pelo quarto árbitro ao técnico do Nacional-SP, Tuca Guimarães. Segundo o relato contido no documento, um torcedor teria segurado e apontado a genitália em direção à médica, que estava na área do banco de reservas. A situação, ainda conforme a súmula, desencadeou um início de discussão entre jogadores e membros da comissão técnica do Nacional com torcedores do Comercial, próximos ao alambrado, evidenciando a tensão e o desconforto gerados pelo ato e o quão rapidamente tais provocações podem escalar para conflitos maiores.

O confronto pessoal e a intervenção policial controversa

A agressão verbal não passou despercebida por todos. Paulo Galvão, namorado de Bianca Francelino e educador físico, e o pai dele, que acompanhavam o jogo da arquibancada, testemunharam a importunação. Ao perceber que o torcedor 'já estava passando do ponto', Paulo tentou intervir. 'No momento que eu vou descer, ele está dando cusparada no campo e aí eu chego e ele já estava falando bastante groselha', relatou Paulo à EPTV. A tentativa de diálogo em busca de respeito se transformou em ameaças: 'Que é você que você quer?', 'vou te pegar', disse o agressor, revelando a hostilidade e a agressividade presentes no ambiente.

Mesmo diante da explicação de Paulo — 'cara, é minha mulher, estou pedindo respeito' — o torcedor continuou com a agressão verbal, misturando o assédio com provocações clubísticas, ao dizer 'volta para São Paulo, você é do Nacional'. A situação escalou a ponto de a Polícia Militar ser acionada. Contudo, a intervenção policial apresentou uma reviravolta preocupante: 'A polícia chegou, acabou separando. Mas eles queriam retirar eu e meu pai de campo', contou Paulo, que tentou explicar a situação, mas teve que se afastar do alambrado para evitar maiores confusões. Este episódio levanta questionamentos sobre a preparação das forças de segurança para lidar com casos de assédio e a proteção das vítimas e de seus apoiadores em ambientes de grande aglomeração, onde a presunção de culpa ainda recai, muitas vezes, sobre quem denuncia.

Implicações legais e a luta contra o assédio no esporte

O caso de Bianca Francelino não é apenas um incidente isolado, mas um sintoma persistente de uma cultura machista que, lamentavelmente, ainda permeia diversos espaços, incluindo os estádios de futebol. A crescente participação de mulheres em funções antes predominantemente masculinas – seja como médicas, árbitras, jornalistas ou em comissões técnicas – desafia padrões arraigados e, infelizmente, ainda encontra resistência na forma de assédio e discriminação. A violência de gênero, conforme dados da própria região de Ribeirão Preto, onde mulheres sofrem, em média, 13 violências por dia (incluindo abusos físicos, psicológicos, sexuais e morais), sublinha a urgência de combater essas práticas em todos os seus contextos.

Do ponto de vista jurídico-desportivo, o assédio pode ter sérias consequências. Vitor Silva Muniz, presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB de Ribeirão Preto, explicou que o Comercial, como clube mandante, pode ser responsabilizado pelas atitudes de seus torcedores, sujeito a uma multa de até R$ 100 mil, de acordo com o artigo 243 G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD), que prevê punições para o clube e para o torcedor identificado. Os torcedores diretamente envolvidos, além disso, podem ser proibidos de frequentar estádios por um período de quase dois anos, conforme a legislação vigente, enviando um sinal claro de que tais atos não serão tolerados.

Este incidente reforça a necessidade de campanhas de conscientização mais efetivas e de uma fiscalização rigorosa nos estádios. É fundamental que as entidades esportivas e as autoridades continuem a trabalhar para garantir que o futebol seja um ambiente seguro e respeitoso para todos, independentemente de gênero. A coragem de Bianca Francelino em denunciar e reafirmar sua paixão pelo esporte serve como um lembrete contundente de que a luta pela igualdade e pelo respeito exige vigilância constante e ação firme contra qualquer forma de assédio, para que a alegria do esporte não seja manchada pela intolerância.

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Fonte: https://g1.globo.com

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