Comunidade Tia Eva: Primeiro Quilombo Urbano do Brasil Recebe Tombamento Histórico do Iphan

Em um marco inédito para a preservação cultural e o reconhecimento dos direitos quilombolas no Brasil, a Comunidade Tia Eva, localizada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, foi oficialmente tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A decisão, formalizada nesta terça-feira, dia 10 de outubro de 2023, durante uma reunião do conselho do Iphan no Rio de Janeiro, consagra o território como o primeiro quilombo do país a ser inscrito em um livro do tombo específico para esses espaços, estabelecendo um precedente fundamental para outras comunidades.

O tombamento vai além do mero reconhecimento: ele confere proteção federal a uma área vital, cuja história e cultura afro-brasileira são pilares da identidade sul-mato-grossense e nacional. Com a oficialização, o Iphan também publicou no Diário Oficial da União um mapa detalhado, delimitando a extensão territorial que agora se beneficia de salvaguardas governamentais, garantindo a preservação de suas referências culturais e a continuidade de um legado forjado na resistência e na fé.

Tia Eva: A Matriarca de um Legado de Resistência

A história da Comunidade Tia Eva é intrinsecamente ligada à figura de sua matriarca, Eva Maria de Jesus. Nascida em Mineiros, Goiás, no final do século XIX, ela viveu a dura realidade da escravidão antes de conquistar sua alforria. Com a liberdade, e impulsionada pela busca por um espaço de autonomia e prosperidade, Tia Eva chegou à região que hoje é Campo Grande em 1905, acompanhada de suas três filhas. Ali, com sua própria força e visão, adquiriu um terreno e lançou as sementes do que viria a ser um dos mais antigos e vibrantes quilombos urbanos do país.

Eva Maria de Jesus não era apenas uma fundadora; era um pilar de sua comunidade. Conhecida por sua fé inabalável e seu profundo senso de serviço, ela desempenhava múltiplos papéis, atuando como parteira, benzedeira, curandeira e até professora, auxiliando os moradores e moldando o caráter do assentamento. Sua devoção a São Benedito a levou a erguer, em 1919, a primeira igreja da comunidade, um símbolo duradouro de sua espiritualidade e união.

O Tombamento como Ato de Justiça Histórica e Cultural

A decisão de tombar o Quilombo Tia Eva é o ápice de um longo e dedicado processo, iniciado por um pedido da própria comunidade. Durante aproximadamente dois anos, equipes técnicas do Iphan trabalharam em estreita colaboração com os moradores, realizando um levantamento minucioso das referências culturais do local. Esse esforço conjunto permitiu identificar e catalogar as tradições, as histórias orais, os saberes e os espaços que conferem singularidade à comunidade, construindo um robusto dossiê para a aprovação do conselho.

Para os cerca de 250 famílias que hoje vivem na área, todas descendentes diretas de Tia Eva, o tombamento representa muito mais do que um título. Ronaldo Jefferson da Silva, presidente da Associação dos Descendentes de Tia Eva, expressa esse sentimento: “É a continuidade de uma luta de resistência de Tia Eva. Ela veio de Mineiros buscando um espaço seu, para dar continuidade à sua linhagem e à sua história. Com o tombamento, temos agora um território protegido, um legado que se perpetua.” Esse reconhecimento federal reforça a importância histórica do local e solidifica a preservação da memória e da cultura afro-brasileira em Campo Grande, uma capital com crescente visibilidade sobre suas raízes étnicas.

Presença do Estado e Salvaguarda das Tradições

João Henrique dos Santos, superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, salienta a dimensão prática do tombamento. “A principal mudança é a presença do Estado brasileiro mais próximo da comunidade”, afirma. Segundo ele, o processo permite não apenas identificar as referências culturais, mas também definir e implementar ações de salvaguarda. Essas medidas são cruciais para que as ricas tradições, os rituais, as festividades e os modos de vida da Comunidade Tia Eva continuem a existir e a ser transmitidos às futuras gerações, garantindo a vitalidade de sua herança imaterial.

Restauração e Revitalização: A Igreja de São Benedito como Centro da Vida Comunitária

Um dos símbolos mais potentes e visíveis da Comunidade Tia Eva é a histórica Igreja de São Benedito. Construído em 1919 pela própria matriarca, o templo já possuía o status de patrimônio histórico municipal e estadual. Atualmente, a igreja está passando por um extenso processo de restauração, que a transformará no coração de um novo e ambicioso complexo comunitário. Este projeto de revitalização, com um investimento superior a R$ 2,2 milhões, inclui a construção de uma praça, um centro de atendimento à comunidade e a reforma do salão de eventos, prometendo um espaço multifuncional para os moradores.

Adanilton Faustino de Souza Júnior, gerente de projetos e orçamentos da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul), destaca a urgência da intervenção na igreja. “Demos prioridade à igreja por conta de sua situação estrutural”, explica. A expectativa é que o templo restaurado seja entregue até novembro, a tempo das festividades do centenário de Tia Eva, marcando uma celebração simbólica entre a memória do passado e a renovação do futuro. A previsão é que todo o complexo seja concluído até junho do próximo ano, proporcionando um novo fôlego para as atividades sociais e culturais do quilombo.

Visibilidade e Emancipação: O Impacto para o Futuro

A emoção é palpável entre os moradores. Raíssa Almeida Silva, arquiteta e membro da comunidade que colaborou com o levantamento histórico junto ao Iphan, resume o sentimento: “É um reconhecimento que a gente recebe com muita gratidão. A comunidade está muito emocionada. Muitas pessoas de Campo Grande ainda não conhecem a história de Tia Eva, e agora essa história ganha visibilidade.” O tombamento não apenas garante a proteção física do território e de seus bens, mas eleva a história de Tia Eva e de sua comunidade ao patamar de patrimônio cultural nacional, concedendo-lhes a visibilidade e o respeito que há muito merecem.

Este reconhecimento pioneiro no Brasil abre um novo capítulo na política de preservação do patrimônio e na luta dos povos quilombolas. A Comunidade Tia Eva, com sua resiliência centenária e sua riqueza cultural, serve agora como farol e inspiração, reforçando a importância de se valorizar e proteger as múltiplas identidades que compõem a nação brasileira.

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Fonte: https://g1.globo.com

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