Fé, ancestralidade e resistência: a força de Mãe Neide Oyá D’Oxum em Alagoas, símbolo de luta e cuidado

Entre o aroma inconfundível do dendê, o eco ancestral dos atabaques e uma força que atravessa gerações, a rica tapeçaria cultural e espiritual de Alagoas é intrinsecamente tecida com o nome de Mãe Neide Oyá D’Oxum. Ialorixá respeitada, mulher negra, incansável liderança comunitária e reconhecida como Patrimônio Vivo do Estado, ela transformou a vivência da fé em um bastião de resistência, e essa resistência, por sua vez, em uma fonte inesgotável de cuidado coletivo e preservação identitária. Sua trajetória não é apenas pessoal; é um espelho das lutas e vitórias dos povos de matriz africana no Brasil.

A potência do ser mulher em Alagoas

Mãe Neide, em suas próprias palavras, encapsula a magnitude de ser mulher, especialmente em um contexto de desafios. *“Ser mulher já é um grande desafio. Comumente falam ‘sexo frágil’, e eu digo que é o sexo forte. A gente já nasce com a força e a graça divina de gerar”*, afirmou em entrevista à TV Asa Branca Alagoas. Esta declaração ressoa profundamente ao observarmos seu percurso. Além de mãe biológica, ela é uma sacerdotisa de matriz africana, um papel de liderança espiritual e social que historicamente tem sido um pilar de sustentação para comunidades marginalizadas, especialmente na luta contra o racismo e a intolerância religiosa.

Sua jornada, segundo ela, é um exercício permanente de enfrentamento. *“Criar filhos na periferia, ser de matriz africana, ser sacerdotisa e ser Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas, numa terra marcada pela intolerância religiosa e pelo ‘Quebra’, é um desafio enorme. Eu vim com essa força feminina para vencer.”* Essa fala sublinha a complexidade de sua posição, conjugando múltiplos marcadores de identidade que a colocam em uma linha de frente contínua pela dignidade e pelo respeito.

Alagoas: um palco de fé, história e intolerância

A menção ao termo ‘Quebra’ por Mãe Neide é crucial para compreender o cenário alagoano. O ‘Quebra’ refere-se a um dos episódios mais sombrios da história local, ocorrido na década de 1910, quando terreiros de Candomblé e Umbanda foram violentamente invadidos e destruídos, com seus praticantes perseguidos e agredidos. Esse trauma histórico deixou marcas profundas na memória coletiva e na vivência religiosa do estado, evidenciando uma persistente intolerância que, embora mitigada por avanços legais e sociais, ainda se manifesta em formas diversas de preconceito e discriminação.

Nesse contexto desafiador, o reconhecimento de Mãe Neide como Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas adquire um peso simbólico ainda maior. Este título, concedido a pessoas que representam o saber e a memória da cultura popular, não apenas celebra a sua contribuição individual, mas também valida e eleva a importância das religiões de matriz africana e de seus líderes, reafirmando seu lugar legítimo na identidade cultural alagoana e brasileira, e servindo como um contraponto potente à história de perseguição.

Uma caminhada espiritual pautada na laicidade e no respeito

A espiritualidade chegou cedo na vida de Mãe Neide, moldando uma visão singular de fé. Sua infância foi marcada por uma vivência religiosa plural: frequentava a igreja católica, mas também participava, de forma discreta, dos cultos da jurema, honrando tanto a missa quanto entidades veneradas como Seu Zé Pilintra. Essa junção de experiências, longe de gerar conflitos, a fortaleceu, contribuindo para a construção de um caminho pautado na laicidade, sem preconceitos ou racismo, e firmemente ancorado no respeito à escolha de cada pessoa. É a manifestação prática de uma fé que transcende dogmas e abraça a diversidade.

No entanto, o percurso não foi isento de dor. A intolerância religiosa deixou marcas profundas, com uma das mais difíceis sendo a descoberta de que sua própria filha, aos 12 anos, escondia o sofrimento para proteger a mãe. *“Ela dizia que eu não merecia aquilo, que nossa religião não era aquilo que falavam. Era medo, angústia. Eu cheguei a tomar remédio controlado na época”*, relembrou Mãe Neide, revelando o impacto devastador do preconceito não apenas sobre os praticantes, mas também sobre seus familiares e a saúde mental de todos os envolvidos. Sua resiliência em face a essas adversidades é um testemunho da força inerente à sua fé e ao seu compromisso.

A cozinha como guardiã da memória e da ancestralidade

Se a fé sustenta a alma, a cozinha de Mãe Neide é onde a ancestralidade ganha cheiro, cor e memória viva. Para ela, cada prato é uma narrativa, uma lição de história e cultura. A culinária afro-brasileira, rica em simbolismos e técnicas passadas de geração em geração, é muito mais do que alimento; é uma expressão de identidade, uma conexão com os antepassados e um veículo de resistência cultural. *“Quando eu sirvo um bife e digo que, ao vir para a Serra da Barriga, a pessoa não vem só para encher a barriga de alimentação, mas de cultura e história, é porque cada prato que minha ancestralidade me ensinou traz identidade”*, explica.

Serra da Barriga: o coração da resistência e da espiritualidade

A Serra da Barriga, em União dos Palmares, é um território de sagrado imensurável, símbolo eterno do Quilombo dos Palmares, o maior e mais duradouro quilombo das Américas e um marco da resistência negra no Brasil. Para Mãe Neide, este local ocupa um lugar central em sua vida espiritual e missão. Ela relata que, após pisar naquele solo pela primeira vez, sentiu a mediunidade, a coragem e a força se intensificarem de forma inaudita. *“Serra da Barriga é vida, é cura, é alimento espiritual, é reencontro”*, afirma emocionada. A conexão com este solo sagrado não apenas nutre sua espiritualidade, mas também fundamenta seu ativismo pela memória e pelos direitos dos povos negros.

O legado em ação: Centro de Formação Cultural Inaê

O espírito de continuidade e transmissão de conhecimento se materializa no Centro de Formação Cultural Inaê, um espaço criado por Mãe Neide para ensinar, acolher e fortalecer a comunidade por meio da cultura e da identidade afro-brasileira. O que começou de forma modesta, com a produção de acarajés e roupas de retalho, cresceu exponencialmente. *“Quando eu me dei conta, tinha mais de 60 meninos aqui dentro. Aí vieram a dança, a percussão”*, contou. O centro é hoje um farol, oferecendo oportunidades de aprendizado e desenvolvimento cultural para crianças e jovens, resgatando a autoestima e promovendo a valorização de suas raízes em um ambiente de afeto e respeito.

Uma corrente de força feminina ancestral

Ao olhar para a própria trajetória, Mãe Neide fala como quem planta sementes para o futuro, mas sempre honrando o passado. Ela reconhece que sua caminhada não é individual, mas fruto da força inabalável de outras mulheres que a precederam. *“Primeiro eu peço a bênção das que vieram antes: tia Marcelina, vó Netinha, mãe Celina, minha mãe de santo. Elas não largam nossa mão. Nossa vida é sustentada através da prece, da renúncia, da dedicação e da resistência dessas grandes mulheres”*. Essa fala ressalta a importância da ancestralidade e da corrente matriarcal nas religiões de matriz africana, onde o conhecimento, a fé e a força são transmitidos e fortalecidos por gerações de mulheres que pavimentaram o caminho para as que viriam.

A história de Mãe Neide Oyá D’Oxum é um testemunho vibrante da resiliência, da fé inquebrantável e do poder transformador da cultura afro-brasileira. Sua vida é um chamado à valorização das raízes, ao combate à intolerância e à construção de uma sociedade mais justa e respeitosa. Para continuar acompanhando histórias inspiradoras, análises aprofundadas e as notícias mais relevantes sobre cultura, sociedade e os desafios contemporâneos do Brasil, o NOME_DO_SITE se mantém comprometido em oferecer informação de qualidade, com a profundidade e o contexto que você busca. Não deixe de conferir nosso portal para se manter atualizado e engajado com os temas que moldam nossa realidade.

Fonte: https://g1.globo.com

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